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sábado, 7 de outubro de 2017

REFLEXÕES DA ALMA



      DEUS CHRONOS                                                                                    DEUS KAIRÓS



Para que serve o tempo em sua inexorabilidade
Mais fria que a lâmina do punhal assassino erguido
Sobre o peito de um cristão caído?
Será cravado sem piedade – assim como o tempo passa.

Para que serve o rubor e a beleza da rosa-rubra, que entregue às mãos da amada de olhos longos e atentos, ao aspirar o doce aroma, irá murchar, e sucumbirá?

Para que serve a estrela da manhã anunciando a aurora?
Ela é eterna, mas está no céu, e a nós é inatingível.

E a lua airosa, para que serve, se tal como a estrela não podemos tocá-la?

Será o céu uma ideia apenas, no campo das hipóteses?

Para que serve a fonte fresca, na qual se banham ninfas, se eu em vão, tenho-as procurado e nunca as encontro, bem como, nem sede sinto para a mitigar?

Para que servem as palavras dos profetas e sábios que dizem serem eternas?

Para que servem os beijos da minha bem-amada? Para que serve o vinho: o vinho que me faz esquecer que a vida não vale nada? 

Não valer nada?!... Duas negações formam uma afirmação - assim disse o mestre que eu abandonei. A vida vale tudo? Mas vale tudo o quê? 

O tempo?...

Para que serve o tempo? Ah, não o vejo, porém sinto ser ele, dois elementos:

O tempo de “Chronos” poderá passar ao largo, esse que às vezes nos oprime com seu peso, mas “kairós”, a intensidade do tempo que muitas vezes representa gozos, regozijo e sonho, é precioso.

De ambos faço a pedra angular sobre a qual ergo as colunas da edificação de meus sonhos, apontando aos céus, e mesmo que o tempo seja inexorável ao passar, devo nele embarcar, e na viagem, realizar meus sonhos.

E o rubor da rubra rosa, para que serve?
Será esplendoroso, ante o esplendor dos olhos longos e ternos da minha bem-amada, detidos por longuíssimo tempo, antes de ceder à sofreguidão minha pela espera de seus lábios mornos virem tocar-me a face. Ah, esse beijo ficará eterno na memória deste romântico e sonhador.

E a estrela da manhã?...

Devo deter meus olhos na doce aragem do frescor da atmosfera em brisa úmida, ao mirar a estrela acesa até que a alvorada a apague com os primeiros raios de sol a ofuscar meus olhos, forçando-me a olhar o horizonte oposto e avistar a vida despertando.

Ver a luz retirar as sombras da atmosfera, e decompondo-se a formar os matizes mais diversos, e os tons em amarelo ouro  que irão dourar-me a memória com esta manhã tão bela.

A estrela modelará meus sonhos para que em dias futuros, a doçura e a ternura da brisa daquela manhã já distante, sejam-me, no futuro, um presente do passado, no presente.

E as palavras de sábios, filósofos e profetas?

Servem para modular as minhas palavras e enaltecer a alma em sentimentos de gratidão.

Com o agigantamento da alma, tudo serve, tudo está perfeito e vale à pena enfrentar percalços para viver a grandiosidade da humana vida.





sábado, 30 de setembro de 2017

SONETO À PARTE DA SECÇÃO DA SESSÃO DOS CEM SONETOS - O SÉTIMO DA SESSÃO


Hoje, último dia de setembro, mês que abriu a primavera, minha paixão por flores buzinou-me para que homenageasse uma delas específica como símbolo da estação. Veio-me, a rosa-da-manhã alba e sem mácula, orvalhada e exposta aos primeiros raios da aurora. Pensei na rosa rubra oferecida a bem amada na plenitude de minha adolescência, em que senti eternizar-se o momento que ela a tomou à mão, olhou-me com seus olhos negros, alongados e ternos, os baixou à flor e levando-a ao olfato aspirou o aroma doce, enquanto meu coração disparava em ânsias por sua reação culminada em leve beijo sobre minha face, possivelmente encarnada como a rosa rubra, e a latejar perifericamente. Pensei na orquídea, mais precisamente na laelia purpurata, símbolo do Estado de Santa Catarina, e do meu arrebatamento. Imaginei a dália e até mesmo a jurubeba, flor narcótica utilizada pelos habitantes  indígenas que nos precederam na ocupação da ilha que habitamos. Finalmente com um toque longo e um breve, a buzina da paixão minha sinalizou-me à flor augusta da vida, para a qual elaborei um pequeno poema em forma de soneto em sua homenagem.
Caladium (popularmente: tajá, tajurá ou tinhorão) - foto web

AUGUSTA FLOR
Autor: Laerte Tavares

Lascivo caladium em florescência
Voluptuosa, corola labiada
Do gineceu - tu és paixão, amada!
Sonho de luz    tu és concupiscência!

Feito desejo tosco, em sua essência,
O falo ou androceu sem ver mais nada,
Só mira com a paixão exacerbada,
O gozo do prazer. Mas a existência

De um novo ser, quando essa união for
Já consumada, virá sem mais pudor.
Oh cárnea flor que ocultada seduz,

Tu simbolizas a vida e o amor
Qual ser divino que é reprodutor
Augusto e eterno, por em dor, dar luz!



sexta-feira, 22 de setembro de 2017

SEÇÃO VI DA SESSÃO: O SILÊNCIO DO SOM DE CEM SONETOS - A PRIMAVERA DA INFÂNCIA

 

Obra de Rodrigo Antônio de Haro (10cm x 13cm).

Sou apaixonado pela minha Ilha de Santa Catarina por ter as quatro estações do ano perfeitamente definidas e por ser à primavera, mais bela ainda com luz magnética, em cujo poente ou na aurora denotam-se matizes de luzes e cores as mais exóticas da atmosfera de nosso maravilhoso Planeta Azul. Dizia o poeta, meu amigo Marcos Konder Reis, que em nosso céu era possível ver a cor amarelo canário em certos ocasos outonais, com um gradiente de concordância às floradas dos guapuruvus (garapuvus – ao nativo), amarelas ouro.  À primavera, as flores são ainda mais abundantes, desde os ipês amarelos, ipês roxos, jacarandás-mimosos e jacatirões (ou manacás-da-serra) em arborizações de logradouros, até aos ajardinamentos das amplas praças públicas e jardins residenciais com azaleias, acácias, bougainvilles, alamandas e outras.  Assim, se engalana nossa cidade, lotada de flores que formam verdadeiros tapetes, roxos, amarelos e multicoloridos no solo sob essas árvores. Mas a dádiva celestial maior, são os frutos numa profusão de espécies, de sabores, cores e aromas que compõe uma enormidade de tipos em sucessivos tempos primaveris, adentrando o verão, mais de vagar. 
Hoje 22/09/2017, homenageio não somente a nova primavera, mas também a nossa augusta Ilha primaveril cheia de encantos que os perde no verão de suas quarenta e duas praias paradisíacas para onde a afluência de turistas é imensa e embaraçosa aos habitantes permanentes. Salve a primavera e salve a nossa ilha de idílios.




A PRIMAVERA DA INFÂNCIA

Sai o inverno, e a primavera
Chega com o doce hino
Do sabiá em seu trino,
Que as primeiras horas dera.

Tempo de flores à espera
Do sazonal e divino
Fruto, que quando menino,
Furto de fruto era mera

Peraltice sem maldade   
Da minha saudosa idade
Com ingenuidade afim.

Hoje essa estação me invade
Com a sacrossanta saudade
Do moleque que há em mim.